quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Q de "Que a alegria permaneça em mim" (VIII)




António Barahona, Só o som por si só (Quarto Tômo da Suma Poética),
com capa a partir de colagem do Autor e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa, Alambique, 17 de Janeiro de 2017

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

M de Mesa de Amigos (II)



Era uma vez uma tarde cheia de sol. Não havia um gesto a mais. Nem palavras. Estava alguém num café. Ao sol. Eram pequeninas coisas a ligarem-se umas às outras: desde um copo de água aos teus ombros. […] E o sol a bater em cheio na mesa. E nas mãos. 

[…] E pronto. É assim que se faz a História. Sem palavras a mais. 

[...]


Eduardo Guerra Carneiro, É assim que se faz a história,
Lisboa: Assírio & Alvim, 1973

domingo, 19 de fevereiro de 2017

L de Ler (VIII)


(a Carson McCullers)


"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
Carson McCullers moribunda ou recém-nascida
cessou de respirar sem alcançar a ciência?

Um velho, a criança, o café ambulante,
na madrugada da América o amor da cerveja,
e a mulher fugitiva dentro do velho
a entrar devagar pelos olhos da criança

"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"
"o sorriso era vivo. - Lembra-te de que te amo"
Eu serei aquele velho e tu a brancura,
a neve suspensa, à noite, sobre a cama,
quando o recordar-te para não morrer
for a única tarefa na solidão do poema

E direi como ele à criança d'alva:
"Sabes como o amor devia começar?"
(E nem alegria nem tristeza no meu rosto:
Um navio em dia de canícula
através do lago dos peixes dourados,
uma chuva miudinha, uma letra infantil
que salpica os painhos pousados nos mastros):

"Uma árvore, um rochedo, uma nuvem"


António Barahona, Eunice,
Lisboa, Ed. do Autor, 1970






à memória de Carson McCullers


Uma árvore, um rochedo, uma nuvem
Carson McCullers moribunda ou recém-nascida
cessou de respirar sem alcançar a ciência?

Um velho, uma criança, um café ambulante,
na madrugada da América o sabor a cerveja,
e uma mulher fugitiva dentro do velho
a entrar devagar plos olhos da criança

Uma árvore, um rochedo, uma nuvem
o sorriso era vivo. - Lembra-te de que te amo
Eu serei aquele velho e tu a mulher,
a neve suspensa, à noite, sôbre a cama,
quando o recordar-te para não morrer
for a única tarefa na solidão do poema

E direi como ele à criança d'alva:
- Sabes como o amor devia começar?
E nem alegria nem tristeza no meu rosto:
um navio em dia de canícula
através do lago dos peixes dourados,
uma chuva miudinha, uma letra infantil
que salpica os painhos pousados nos mastros:

Uma árvore, um rochedo, uma nuvem.


António Barahona, Pássaro-Lyra (Primeiro Tômo da Suma Poética),
Lisboa, Averno, 2015

R de Rosa Rotativa *


You are tired,
(I think)
Of the always puzzle of living and doing;
And so am I.

Come with me, then,
And we'll leave it far and far away—
(Only you and I, understand!)

You have played,
(I think)
And broke the toys you were fondest of,
And are a little tired now;
Tired of things that break, and—
Just tired.
So am I.

But I come with a dream in my eyes tonight,
And knock with a rose at the hopeless gate of your heart—
Open to me!
For I will show you the places Nobody knows,
And, if you like,
The perfect places of Sleep.

Ah, come with me!
I'll blow you that wonderful bubble, the moon,
That floats forever and a day;
I'll sing you the jacinth song
Of the probable stars;
I will attempt the unstartled steppes of dream,
Until I find the Only Flower,
Which shall keep (I think) your little heart
While the moon comes out of the sea.


- E. E. CUMMINGS





ROSA ROTATIVA


para o António Barahona e a Daniela Gomes

                       
                         "Je vis mes roses rosées dans mes ténèbres."

                        PIERRE JEAN JOUVE


Já é tarde. Os grunhos do andar de cima terminaram, enfim, de celebrar estridentemente a vitória do Benfica em Bordéus. Na companhia de Chet Baker, estive a ler As Grandes Ondas e senti-me, uma vez mais, visitado por um fogo limpo que cresce a cada leitura. Até um descrente, como eu, acaba por encontrar ali a única religião possível, onde o amor (pelo que é belo e verdadeiro) e o ódio (pelo que é vil e interesseiro) sabiamente se equilibram numa corajosa Guerra Santa. 
      Foi sempre assim: há os que esculpem versos, recorrendo a aclamadas e simiescas habilidades ou a revoltas de papelão, e existem, nos antípodas (escandalosamente ignorados), os poetas incondicionais, na urgência do seu grito, sussurro ou pranto. Tive a sorte de conhecer alguns desses príncipes sem reino e, em particular, António Barahona. À partida, dir-se-ia, muito pouco nos poderia aproximar. Mas ignorámos ambos, até que fosse chegado o momento, que a amizade é uma ponte incalculável e que o fundo respeito pela língua que partilhamos se tornou uma moeda rara, desprezada por banqueiros, políticos ou linguistas que se deleitam com novas escravaturas, e que tudo procuram traduzir em números.

*

Ao poeta, se realmente o for, nada pode ser alheio. Sabe-o, crua e visceralmente, António Barahona: «E pergunto-me por que escrevo, do mesmo modo que pergunto por que respiro; e reaproprio-me de tudo, a fim de vislumbrar o Todo, na tentativa de converter em harmonia a dissonância do mundo». Daniela Gomes foi sensível a este apelo, permitindo que as rosas rotativas do poeta se fundissem no mar inominado em que corpo e espírito se equivalem, para que o verbo sangre e resplandeça.

*

Poucas grandes ondas tenho visto assim tão altas. Devia oferecer-vos, em vez deste texto, rosas brancas e vermelhas, coisas de cheiro feliz.


- Manuel de Freitas
in Telhados de Vidro  n.º 18, Lisboa, Averno, Maio de 2013

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" - XXX b


"Com a primeira luz, um pássaro negro afasta-se a voar - é um poema."

Lawrence Ferlinghetti, A Poesia como Arte Insurgente,
trad. de Inês Dias, Lisboa, Relógio D'Água, 2016




[ID, São Miguel / Agosto 012]

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

S de "Sempre disse tais coisas esperançad@ na vulcanologia" (XXXVII)



[ID, São Miguel, 28/06/015]



UM POEMA DE CARL SANDBURG


Quero-te 
como as raízes secas
desejam a chuva
no verão

como o vento deseja
as folhas
do chão

e perdoa
dizer tudo isto tão
depressa


Emanuel Félix, 121 Poemas Escolhidos
Lisboa, Edições Salamandra, 2003




[ID, São Miguel, 25/06/015]

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

S de Sense of Snow (XI)


BALLADEN OM JENNY LIND


E é de novo sexta-feira, na mesma cidade.
As sirenes respondem pontualmente
aos corpos e bicicletas que se perdem
noite dentro. Nada que possa incomodar
o sono altivo dos mendigos da Stroget,
enrolados em mantas e garrafas já sem cor.

Decidimos tomar o último copo
no café Monten. Ao balcão, os homens
dos barcos falavam de todos os países
que viram ou não viram, sob nuvens de fumo
que escondiam mal um inglês de circunstância.

Na parede junto à nossa mesa (recorte
da época) Jenny Lind morria - e eu
ficava a saber, em sueco, que "Rökning
dödar", o que não parecia incomodar
nenhum dos presentes. No Nyhavn,
porém, anoitecia muito depressa. Teremos
de esperar pela neve, agora que passou a chuva.


Manuel de Freitas, Brynt Kobolt,
Lisboa: Averno, 2008




terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

S de Santa Cruz (XI)


[Navio Hay, encalhado a 5 de Fevereiro de 1929, em Santa Cruz, na actual Praia do Navio
- um dos fascínios da minha infância]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

S de Santa Cruz (XV)


ADAMASTOR
[Miradouro de Santa Catarina, 1927]


Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.
Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
que ressuscitava todas as manhãs,
corpo de ossos já limpos.
Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final.

E escrevemos como vivemos,
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa convicção de que
nada ficará – nós não ficaremos.


Inês Dias, Da Capo,
Lisboa, Averno, 2014





sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

M de "My house, I say" (VIII)


O sorriso aos 2 minutos e 4 segundos: 
"When he takes me in his harms/ The world is bright/ All right".



I de Intimidade - b


Termina assim um poema de Jean Genet:

"Mais pour me parcourir enlève tes souliers."



[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 03/014]

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

P de "Postais do fim do mundo"


"Caminhavam e dormiam contra o ritmo do mundo. [...] Atiravam ao rio os jornais, e isso era a sua oração: serem levados, erguidos, pisados, sem sentirem no homem o osso da dor instalada no esqueleto, mas só o pulsar do fluxo do sangue. Nada de combates, de violências, de despertar."

Anaïs Nin, "A Casa Fluvial", Debaixo de uma Redoma,
trad. de Maria Ondina Braga, Lisboa: Vega, 1986




[27/01/2013]

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

sábado, 21 de janeiro de 2017

C de "Celui qui regarde une fenêtre fermée" (V)


[...]
Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto.
[...]


João Miguel Fernandes Jorge
in O Próximo Outono, Lisboa, Relógio D'Água, 2012





[ID, 20/01/017]

domingo, 15 de janeiro de 2017

I de Inverno (II)




[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 12/012]




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

C de Cicatriz (III)




You talk like Marlene Dietrich
And you dance like Zizi Jeanmaire
Your clothes are all made by Balmain
And there's diamonds and pearls in your hair, yes there are

You live in a fancy apartment
Off the Boulevard Saint-Michel
Where you keep your Rolling Stones records
And a friend of Sacha Distel, yes you do

But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

I've seen all your qualifications
You got from the Sorbonne
And the painting you stole from Picasso
Your loveliness goes on and on, yes it does

When you go on your summer vacation
You go to Juan-les-Pins
With your carefully designed topless swimsuit
You get an even suntan on your back and on your legs

And when the snow falls you're found in Saint Moritz
With the others of the jet-set
And you sip your Napoleon brandy
But you never get your lips wet, no you don't

But where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Won't you tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

Your name, it is heard in high places
You know the Aga Khan
He sent you a racehorse for Christmas
And you keep it just for fun, for a laugh
They say that when you get married
It'll be to a millionaire
But they don't realize where you came from
And I wonder if they really care, or give a damn

Where do you go to my lovely
When you're alone in your bed
Tell me the thoughts that surround you
I want to look inside your head, yes I do

I remember the back streets of Naples
Two children begging in rags
Both touched with a burning ambition
To shake off their lowly-born tags, so they try

So look into my face Marie-Claire
And remember just who you are
Then go and forget me forever
But I know you still bear the scar, deep inside, yes you do

I know where you go to my lovely
When you're alone in your bed
I know the thoughts that surround you
'Cause I can look inside your head


[ouvido/dansado no Bartleby]

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

R de Rezar na era da técnica (VI)


Não nos induzas em tentação.
sed libera nos a malo. Livra-nos, se puderes,
das angústias sem fim, das noites de insônia,
dos sonhos possíveis que se tornam impossíveis.
Livra-nos do assédio dos fracos,
da inconsistência das coisas,
do medo sem motivo, das confissões
excessivas e do sucesso,
que tira a nossa liberdade
e é capaz de iludir os mais sagazes.


- MARLY DE OLIVEIRA

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

S de Solidão (ou C de Comunidade) - LXVI




José Amaro Dionísio
in Às Escuras (com Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado 
e Fernando Cabral Martins), Lisboa, 100 Cabeças, 2016

domingo, 1 de janeiro de 2017

B de Bom Ano Novo (III)


Réveillon


As vozes. Os gestos. A passagem dos minutos, dos segundos. Lá fora, o frio intransitável. O coração reduzido ao receio do sangue sem diálogo (o pacífico punhal na bainha). A música à beira do excesso.
O ausente amantíssimo mas que não ousa o gesto decisivo. O vinho fluindo, o olhar interior fixo no horizonte, a mais ninguém visível. O rosto inebriado, sem lágrimas.
À meia noite as taças erguem-se até aos lábios sôfregos de esperança. No instante que mais confina com o silêncio, tudo mergulha no primeiro dia do eterno retorno.
O ausente amantíssimo. E o outro, deste lado do oceano. Habitando os dois a saudade, num coração solitário, à beira da explosão.
Lá fora, as estrelas brilham menos. Alguém começa a antever ao longe, muito ao longe, o cortejo da madrugada.

Londres, 1 de Janeiro 1997


Alberto de Lacerda, O Pajem Formidável dos Indícios,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2010

sábado, 31 de dezembro de 2016

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

P de Poética (LVIX)


ESCREVER


Ficas frente à parede, abraças a cal. Dizem que queima. 


José Amaro Dionísio
in Às Escuras (com Helder Moura Pereira, Fátima Maldonado e Fernando Cabral Martins), Lisboa, 100 Cabeças, 2016





[ID,  Lisboa, 03/016]

domingo, 25 de dezembro de 2016

M de Merry Christmas (VII)




Giovanni Bellini
[detalhe]

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

C de Coração arquivista



[ID, 'Pelos caminhos da manhã', 11/016]



SEIS RECOMENDAÇÕES


Que idade tem esta sombra
Não lhe toques a carne

Concentra-te na superstição
Arrepio do pensamento

Prepara um chá, não arrastes a cadeira
Os nomes são ditos para dentro

Assoa-te, tira a cera dos ouvidos
Recordas Afrodite no wc?

Não adormeças no carril
O destino não tem ramal

Desliga a luz de cabeceira
E dorme para o lado que é teu


Nunes da Rocha, Óculos sujos, fígado gordo,
Lisboa, & etc, 2013